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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

“Sob um Falso Nome” de Cristina Campo (Assírio e Alvim, 2008) é formado por diversos ensaios sobre temas muito diversos, unidos por um fio condutor que tem a ver com “uma atenta leitura da realidade e da arte”, isto é, “uma leitura total, em planos múltiplos: poético, humano, espiritual, religioso e simbólico”. Com esta obra, servida por uma muito boa tradução de Armando Silva Carvalho, podemos ter novo contacto com a autora de “Os Imperdoáveis”, livro também publicado na colecção “Teofanias”, biblioteca deslumbrante, que agora nos traz mais este tesouro. Os ensaios abordam, sempre com brilhantismo e profundo sentido poético, desde a liturgia cristã a Truman Capote, passando por Simone Weil, Djuna Barnes, Virgínia Wolf, Katherine Mainsfield, Jorge Luís Borges, D’Annunzio e Shakespeare. E a cada passo sentimos a densidade espiritual e a capacidade de encantamento que a escrita de Cristina Campo sempre contém.

A VIDA DOS LIVROS
De 1 a 7 de Dezembro de 2008.


“Sob um Falso Nome” de Cristina Campo (Assírio e Alvim, 2008) é formado por diversos ensaios sobre temas muito diversos, unidos por um fio condutor que tem a ver com “uma atenta leitura da realidade e da arte”, isto é, “uma leitura total, em planos múltiplos: poético, humano, espiritual, religioso e simbólico”. Com esta obra, servida por uma muito boa tradução de Armando Silva Carvalho, podemos ter novo contacto com a autora de “Os Imperdoáveis”, livro também publicado na colecção “Teofanias”, biblioteca deslumbrante, que agora nos traz mais este tesouro. Os ensaios abordam, sempre com brilhantismo e profundo sentido poético, desde a liturgia cristã a Truman Capote, passando por Simone Weil, Djuna Barnes, Virgínia Wolf, Katherine Mainsfield, Jorge Luís Borges, D’Annunzio e Shakespeare. E a cada passo sentimos a densidade espiritual e a capacidade de encantamento que a escrita de Cristina Campo sempre contém.

VITTORIA GUERRINI (1923-1977) nasceu em Bolonha e morreu em Roma. Adoptou o pseudónimo de Cristina Campo para assinar a sua poesia. Cristina, de “portadora de Cristo” e Campo, “numa referência aos campos de concentração, característica dramática do nosso tempo, “campos de dor”, segundo a sua própria expressão. Cultora entusiasta da literatura, traduziu e comentou desde Homero a Hölderlin, passando, entre outros, pelos Padres do Deserto, por S. João da Cruz, Proust, Emily Dickinson, Djuna Barnes, Katherine Mansfield, William Carlos Williams e por Simone Weil. Dir-se-ia que Cristina Campo busca na literatura a chave para muitos dos enigmas a que procura incessantemente responder - com a sociedade em que se integra. Mário Luzi, que ofereceu a Vittoria o primeiro texto de Simone Weil, fala, aliás, de um vasto território comum à iluminação poética e religiosa. Em 1953 prepara a antologia, que nunca seria publicada, “Il Livro delle 80 poetesse” (obra ambiciosa, que pretendia se “uma recolha nunca tentada até agora das mais puras páginas escritas por mãos femininas através dos tempos”). Em 1956 vem a lume o primeiro livro de poesia, “O Passo do Adeus” (traduzido em português), e a partir de 1960, depois do contacto com Elémire Zolla, inicia uma fase mística e de especial interesse pela temática religiosa. O tema da liturgia entusiasmou Cristina Campo, como sinal de glorificação e encontro do mistério com a humanidade. É por isso que afirma: “A complexidade do gesto de Madalena (a unção de Betânia) (…) faz com que algo de litúrgico se torne de certo modo sacramental. Mas podemos recordar, ainda antes do seu gesto, aquele não menos inefável, ainda que mais simples, dos sapientíssimos Magos. Os quais, partindo em busca de um menino necessitado de tudo, não lhe levaram leite nem vestuário, mas as insígnias da Sua tríplice dignidade de Profeta, de Sacerdote e de Rei”. Afinal, o próprio Deus, apesar de ter encarnado numa criança pobre, não dispensa a celebração simbólica da sua glória, representada pela liturgia. De um modo muito claro e simples, a escritora liga, assim, o sagrado e o simbólico, o espírito e a poesia – longe de qualquer ostentação ou pretensiosismo, mas de olhos postos numa dignidade perene. “Todo o homem que produz um acto livre projecta a sua personalidade no infinito” – como disse Léon Bloy, a propósito do mistério da Reversibilidade, que é o nome filosófico da Comunhão dos Santos. “Um movimento de piedade canta por ele os louvores divinos… cuida dos enfermos, consola os desesperados, aplaca as tempestades, regata os maus, converte os infiéis e protege o género humano”. Mas se é assim para os movimentos de piedade, é o inverso para a hipocrisia e a falsidade… E, segundo um anónimo do Monte Athos, citado numa das epígrafes de um dos textos publicados, o objectivo da filosofia deveria consistir na manutenção imperturbável da união com o divino amor e a paz…
A SOMBRA DE BORGES 
Cristina Campo recorda, entretanto, Hoffmannsthal, a propósito de Jorge Luís Borges: “Descrever com extrema precisão física coisas fisicamente impossíveis, essa é a verdadeira criação através da palavra”. E invoca “O Imortal”, publicado a abrir o “Aleph”. Aí se conta a história de um misterioso antiquário de Esmirna, Joseph Cartaphilus, um homem que bebia a água dos imortais e que era o produto da dialéctica inexorável entre a memória e o esquecimento, entre o desejo de viver e o limite da morte. Em sucessivas vidas que se projectam em Cartaphilus, há uma só vida a ser vivida, e tudo o que transmite faz parte dela e das relações que a partir dela são estabelecidas. Cristina Campo usa essa vida feita de várias vidas para procurar a força perene da palavra, o único elo que permite entender a realidade que nos cerca. E porque a palavra é para Cristina Campo um elemento sagrado, a liturgia tradicional, latina e gregoriana deveria ser salva – não porque tenha sido adoptada uma liturgia vulgar, mas “porque a tradicional foi banida nos locais onde era compreendida e amada”. À distância pode parecer estranha esta defesa. Sobretudo, quando a reivindicação da liturgia tradicional tem sido feita por grupos em que o tradicionalismo prevalece sobre a compreensão dos sinais dos tempos. Vittoria Guerrini faz, no entanto, a defesa da opção pelo latim em nome de coerência e da fidelidade litúrgica, com uma sólida fundamentação que a leva a ter uma especial admiração pelo rito bizantino e pelo apego a uma simbiose entre o gesto e a palavra.
SIMONE WEIL BEM PRESENTE
Não é possível, entretanto, entrarmos na mensagem e na obra legada por Simone Weil, compreendendo-as, sem ler Cristina Campo, apesar das distâncias. No entanto, podemos entender, a uma nova luz, a importância do testemunho cristão de Simone Weil. Em 1972 foi publicado um polémico prefácio assinado por um tal Benedetto P. d’Angelo para a edição italiana de “Espera de Deus”. Segundo esse suposto religioso, o livro de Weil não seria um “grande clássico cristão”, mas um “grande clássico pré-cristão”. No entanto, o religioso não era senão a própria Vittoria Guerrini, que afirmava criticamente ter faltado a Weil o contacto com os Padres Ocidentais (em especial Agostinho de Hipona), com os Padres Orientais (como Gregório de Nissa), com os monges e anacoretas dos primeiros séculos, com os ascetas e os místicos da Contra-reforma e com o esplendor do Missal, do Breviário, do Ritual e do Pontifical, “onde toda a beleza e necessidade, do metal do sino ao mínimo grão, da gota de mel à bochecha do recém-nascido, da essência destilada das flores às cortinas do leito nupcial, até ao adeus e à própria morte, são erguidas até ao seu máximo, ao seu significado divino ”. E assim, num texto controverso, mas de uma grande beleza e exigência relativamente à procura de um caminho de Verdade e Vida, Benedetto d’Angelo, aliás, Vittoria Guerrini, ou, em boa verdade Cristina Campo, explica por que razão Simone Weil ficou aquém do que desejaria, uma vez que não teve a oportunidade de mergulhar na sublimidade de uma procura profeticamente preparada.
«É INDISPENSÁVEL QUE VERDADE ASSENTE NA GLÓRIA» 
A afirmação é ainda de Léon Bloy é revela-se de uma premência extraordinária. «O esplendor do estilo não é um luxo mas uma necessidade». Eis o que deve ser entendido. Cristina Campo trabalhou intensamente no desenvolvimento do novo conceito, que deverá levar à compreensão da relação humana com o sagrado e com a arte, o que envolverá o conhecimento e a compreensão e a capacidade de ir além das ilusões e das aparências. 

E oiça aqui as minhas sugestões na Rádio Renascença.

                                                               Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 30 de novembro de 2008