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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

“A Vida num Sopro” de José Rodrigues dos Santos (Gradiva, 2008) é o corolário de um percurso do autor no campo da ficção, onde se nota uma procura de maturidade que vem desde “A Ilha das Trevas” (2002) e começa a desenhar-se com “A Filha do Capitão” (2004) e sobretudo com “Codex 632” (2005), encontrando-nos neste último caso perante um exercício atraente de resposta ficcional para um enigma histórico. Já “A Fórmula de Deus” (2006) e “O Sétimo Selo” (2007) situaram-se num território em que o jornalista ocupou lugar do ficcionista. No entanto, essas obras permitiram que o autor pudesse dar novos passos no sentido de um melhor domínio da narrativa e da escrita. Com o novo romance, temos o início de uma nova fase na vida literária do autor, num caminho de exigência que, estou certo, irá prosseguir.

A Vida dos Livros
De 3 a 9 de Novembro de 2008

“A Vida num Sopro” de José Rodrigues dos Santos (Gradiva, 2008) é o corolário de um percurso do autor no campo da ficção, onde se nota uma procura de maturidade que vem desde “A Ilha das Trevas” (2002) e começa a desenhar-se com “A Filha do Capitão” (2004) e sobretudo com “Codex 632” (2005), encontrando-nos neste último caso perante um exercício atraente de resposta ficcional para um enigma histórico. Já “A Fórmula de Deus” (2006) e “O Sétimo Selo” (2007) situaram-se num território em que o jornalista ocupou lugar do ficcionista. No entanto, essas obras permitiram que o autor pudesse dar novos passos no sentido de um melhor domínio da narrativa e da escrita. Com o novo romance, temos o início de uma nova fase na vida literária do autor, num caminho de exigência que, estou certo, irá prosseguir.

 
Liceu Nacional de Bragança em 1929.

O REGRESSO DA NARRATIVA
Deparamo-nos com o regresso da narrativa e do seu culto. O escritor conta-nos uma história que obriga a um domínio significativo dos acontecimentos e das personagens. Se em “Codex 632” há uma matéria-prima conhecida de factos que o ficcionista procura encenar, de modo que pretende convencer-nos, a partir da não-verdade de algumas explicações oficiais sobre o genovês Colombo, aqui temos como pano de fundo a história portuguesa de 1929 a 1939 e em primeiro plano uma sucessão de encontros e desencontros aparentemente comuns, pontuados pelos versos de Fernando Pessoa: “Dorme, mãe Pátria, nula e postergada / E, se um sonho de esperanças te surgir, / Não creias nele, porque tudo é nada / E nunca vem aquilo que há-de vir”. E é significativo que, neste ano de 2008, que tantos comparam e assemelham a 1929, sejamos levados a reflectir sobre a esperança e a tragédia, de uma teia que se vai urdindo, entre acasos e determinismos, até um desenlace que vai sendo preparado ou adivinhado, pela revelação paulatina do enigma. Estamos diante de uma história do século XX. Sente-se o país profundo. O autoritarismo revoltante de um director de escola. A imposição familiar de uma proibição absurda e de um afastamento ignóbil. Para uma jovem esperançosa. A complacência geral com um clima malsão. A força do acaso que promove o reencontro declarado impossível. O desenlace fatal. A morte. A guerra civil de Espanha que parece apresentar uma saída airosa. A construção de uma mentira policial laboriosa que tudo precipita… Em “A Vida num Sopro” temos o culto da narrativa, claro, persistente, perverso. Sem cedências fáceis, a força do destino vai fazendo das suas e vai levando as personagens para um caminho sem saída. Mesmo quando a pressão trágica parece aliviar-se, surge uma nova circunstância que complica tudo e torna os acontecimentos insustentáveis. E a lição de Thomas Mann é seguido. Os vários passos vão sendo trilhados, como se a realização da terrível profecia da esfinge se fosse tornando cada vez mais fatal. E se Homero foi concedendo a Ulisses a argúcia e o ardil para fugir à condenação do destino, o nosso autor não facilita as coisas e constrói o percurso trágico que a chave do poema pessoano revelará.

A NARRATIVA É TENSA E COMPLEXA
O país de supostos brandos costumes e de artificial homogeneidade alberga os ingredientes fundamentais que fazem coexistir o conformismo e a revolta. E as personagens têm existência própria, distinguem-se, sentem, debatem-se intimamente. As máscaras do teatro grego são bem marcadas. E é isto que distingue quem se limita a seguir uma receita de escrita para atrair público e quem, como é o caso vertente, não se deixa apenas arrastar pelo prazer da escrita e trabalha arduamente num “deus ex machina” que permite ir ao encontro da velha regra segundo a qual a realidade é sempre mais rica do que se possa inventar. A escrita persegue o real e sabe que, por isso mesmo, não pode deixar-se aprisionar por ele, pelo esperável e pelos lugares comuns. A sociedade de 1929 a 1939 é feita de claros e escuros, de racionalidade e de impulsos emotivos, inexplicáveis, de candura e de barbárie. Encontramos, assim, quem defende o salazarismo e quem é levado a opor-se-lhe. E também verificamos que o autoritarismo nasce de um caldo de cultura que a própria sociedade produz e desenvolve. E a guerra civil de Espanha é a oportunidade para olhar o laboratório que levará na década seguinte à horrenda guerra mundial e à banalização do mal, que muitos continuavam a considerar evitável. Munique em Setembro de 1938 era o lado do optimismo impossível… E a mentalidade perversa, que pode levar a mascarar a realidade, sente-se na construção da falsa história policial (da PVDE), que conduz à realização final da tragédia descrita pelo narrador omnisciente. Para espanto do leitor, que conhece os factos reais, porque tudo lhe foi dito, a prova que aparece (com uma clareza quase infantil) cai sobre a cabeça de quem se vê confrontado com o dilema entre a traição moral e a defesa da sua inocência parcial. É que um processo de delito comum se mistura com uma cabala política e uma verdade incómodo torna-se motivo de uma mentira grotesca.

AS CONTRADIÇÕES, AS ANGÚSTIAS, os dramas, a repetição do eterno dilema de Antígona, perdida entre as leis escritas e as leis do coração, as aparências e os insondáveis caminhos da verdade. Uma tragédia constrói-se com estes ingredientes, que são a matéria-prima da vida. E nós, leitores, somos levados a compartilhar com Luís uma escolha dramática. E ouvimos nesse momento George Steiner: “seja quem for que sistematicamente humilhe (…) degrada o núcleo essencial da sua humanidade”. Somos, afinal, sempre cúmplices do que nos deixa indiferentes. E que é o regresso da narrativa senão a descoberta através do relato, da escrita, da comunicação, da resposta aos grandes enigmas, do núcleo essencial da nossa própria humanidade? O tema fundamental do livro tem a ver com isso mesmo, por isso vai da placidez de um amor juvenil à terrível convergência da mentira, da perversão e da ignomínia. Tudo começa em Bragança, num meio rural, fechado, desconfiado do progresso. Mas, nesse distante ano de 1929, sentimos o país na encruzilhada de uma crise mundial, de um mal-estar europeu e de uma sociedade nacional desorganizada em busca de um sabre. Lisboa, a Universidade, o fascínio que a capital causa em quem chega da província, as perdições dos meios citadinos, a hipocrisia, a afirmação do novo poder, as ascensão lenta e segura como governante de um Professor de Coimbra, o clima de desconfiança, a transição da liberdade republicana para um tempo de paredes com ouvidos, a chegada de um ciclo de autoritarismo e de proteccionismo, a emergência da República espanhola e logo a seguir da guerra civil, que, paredes meias, faz-se sentir intensamente aqui. Propositadamente, o nosso autor trata do que acontece de um lado e do outro da fronteira, uma vez que um dos protagonistas, até certa altura com um papel secundário, mas que de súbito se torna crucial, combate, ganhando do lado nacionalista da guerra o que perdera num gesto fortuito que constitui o clímax do romance. Luís, Amélia, Joana, Francisco, Tino, o Capitão Branco… - eis quem ocupa a cena, em aproximações e afastamentos sucessivos. Cada espaço é definido com nitidez e cada personalidade define o seu próprio drama.

“A PRIMAVERA CHEGARA, mas não sorria. O céu apresentava-se coberto por um tecto metálico, parecia prata líquida, e mesmo a verdura da encosta desmaiara sob a luz pálida da manhã”… Tudo parece anunciar-se no sentido que podemos pressentir. As palavras são cuidadosamente ponderadas. Para que a narrativa funcione, é preciso que a curiosidade seja incentivada – de modo a podermos avançar na narrativa, sedentos de conhecer o que se segue. William Faulkner denunciava os excessos da fatalidade – “essa estranha ausência da proporção entre a causa e o efeito que caracterizava sempre o destino quando reduzido a servir-se de seres humanos como instrumentos, como material”. E, no entanto, desejamos emancipar-nos de um menoridade culpada. Eis-nos no cerne do trágico, onde a liberdade e o destino se confrontam. E se as grandes narrativas parecem entrar no ocaso, temos de retornar à narrativa, ao saber contar uma história e ao procurar nesse encadeado de episódios a razão de ser da dignidade que desejamos. Nietzsche pareceu anunciar o fim do trágico e a reconciliação definitiva do homem com o seu próprio destino. Mas foi o contrário que se viu. E só se entende a liberdade com o retorno do trágico – por isso, Malraux interpreta a tragédia grega como o crepúsculo dos deuses e a emergência da humanidade. Essa emergência obriga, porém, ao retorno da narrativa e das dialécticas da vontade. Longe da ilusão dos determinismos, numa encruzilhada difícil em que a prevalência da ilusão leva-nos a tentar conciliar com a imagem de um mundo que vive a ilusão do imediato, para além das suas capacidades, é chegado o momento de realçar a tensão criadora entre vontade e destino, entre realidade e mito. “O trágico consiste no confronto” (disse Domenach). Assim, este romance é significativo de um tempo em que desejamos não as formas abstractas e cibernéticas, mas a dimensão humana, nua e crua. E todos os protagonistas coexistem com outros tantos fantasmas que desejamos interrogar agora, como se fossemos a esfinge à beira da estrada de Tebas… 

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                                                              Guilherme d'Oliveira Martins