A Vida dos Livros

A VIDA DOS LIVROS

Poucos dias depois da assinatura do Tratado de Lisboa, o instrumento reformador da União Europeia, que abre novos horizontes para um projecto de paz, de desenvolvimento e de diversidade cultural, recordamos “L’Europe en Jeu” (La Baconnière, Neuchatel, 1948), uma obra clássica do século XX, da autoria de Denis de Rougemont, publicada na sequência do Congresso Europeu reunido na cidade de Haia, que lançou os fundamentos da reconstrução europeia no pós-guerra.

A VIDA DOS LIVROS
De 17 a 23 de Dezembro de 2007.



Poucos dias depois da assinatura do Tratado de Lisboa, o instrumento reformador da União Europeia, que abre novos horizontes para um projecto de paz, de desenvolvimento e de diversidade cultural, recordamos “L’Europe en Jeu” (La Baconnière, Neuchatel, 1948), uma obra clássica do século XX, da autoria de Denis de Rougemont, publicada na sequência do Congresso Europeu reunido na cidade de Haia, que lançou os fundamentos da reconstrução europeia no pós-guerra.


 
Guido Reni (1575-1642), L’Enlèvement d’Europe (1640), Musée des Beaux Arts de Tours.


A LEITURA DE UM VISIONÁRIO 
Denis de Rougemont (1906-2005), de nacionalidade Suiça, foi um dos intelectuais mais influentes na reflexão europeia entre guerras e depois de 1945. Ao lado de Gabriel Marcel, Emmanuel Mounier e Alexandre Marc baseou a sua intervenção intelectual na valorização da pessoa humana, na denúncia das concepções transpersonalistas e na preocupação com mobilizar os cidadãos na defesa do bem comum. Discípulo de Karl Barth, defendeu uma relação aberta e criadora assente na conciliação entre fé e razão. Em 1938 deu à estampa a sua obra mais conhecida, “L’Amour et l’Occident”, depois de ter sido leitor na Universidade de Francfort. No ano de 1939 foi mobilizado para o exército suíço, sendo condenado a 15 dias de prisão militar por criticar severamente a invasão alemã da França e a ocupação de Paris. Funda a Liga de Gothard, um grupo de resistência contra os fascismos em ascensão, mas perante a sua posição crítica e incómoda é enviado para os Estados Unidos, a pretexto de realizar uma série de conferências sobre a Suiça. Viaja ainda para a Argentina, onde contacta com o grupo da revista “Sur”, animado por Victória Ocampo, que o acolhe. Regressado aos Estados Unidos, prossegue a acção em prol dos aliados, na École Libre des Hautes Études e no Office of War Information. Encontra Saint-John Perse, Saint Exupéry, Marcel Duchamp, André Breton, Max Ernst e o Conde Coudehhove-Kalergi. Em 1946 regressa à Europa e realiza a 8 de Setembro o primeiro discurso sobre a União do continente. Discute em Princeton problemas da reconstrução europeia e do entendimento entre os povos com Albert Einstein. Em 1947 anima o Congresso da União Europeia dos Federalistas em Montreux, de onde sai a ideia de realizar o Congresso Europeu de Haia. Na capital da Holanda, em 1948, proferirá a Mensagem aos Europeus numa sessão memorável sob a presidência de Winston Churchill. Anima o Centro Europeu da Cultura (CEC), em Genebra, é delegado geral da União Europeia dos Federalistas e em 1949 promove a Conferência Europeia da Cultura, sob a presidência de Salvador Madariaga. No ano seguinte, participa em Berlim nas manifestações que levam ao surgimento do Congresso para a Liberdade da Cultura, de que será presidente de 1952 a 1966. O Congresso será, aliás, representado em Portugal pelo Centro Nacional de Cultura. Rougemont lança então, a partir de Genebra, diversas iniciativas, como a Associação Europeia de Festivais de Música, o CERN – Conselho da Europa para a Investigação Nuclear, a Fundação Europeia da Cultura e o que virá a ser o Instituto Europeu da Universidade de Genebra. Sempre pioneiro e visionário, liga nos anos setenta o combate europeu aos primeiros passos do movimento ecologista, com o estudo sobre os perigos do nuclear, com a criação do Groupe de Bellerive (1977), de Ecoreupa (com Jacques Ellul) e da revista “Cadmos”.



UMA QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA
Para Rougemont, a alternativa que se punha (e põe) à Europa era entre a unidade ou o desaparecimento. “Dividida em nações rivais, não podendo nenhuma delas assegurar a sua defesa, a Europa será colonizada”. Só a existência de elos federadores muito fortes permitem impedir a guerra e lançar as bases da paz e do desenvolvimento. “Unir a Europa nas suas diferenças, esse é o grande objectivo comum que se oferece a esta geração”. Assim, os textos reunidos nesta obra fundamental referem-se ao lançamento dos Encontros Internacionais de Genebra (1946), ao Congresso de Montreux (1947) e ao Congresso Europeu de Haia (1948). Basta lê-los para depressa compreendermos que o entusiasmo cívico que é assumido pelo autor corresponde a uma leitura muito lúcida sobre a realidade europeia, ainda hoje demasiado dominada pelas resistências, pelos receios, pelos medos e pelos egoísmos nacionais.


EUROPA, MEMÓRIA DO MUNDO
“É porque a Europa é a memória do Mundo que não deixará de inventar. Continuará a ser o ponto de virulência extremo da criação espiritual, este canto do mundo onde o homem soube tirar de si mesmo as utopias mais transformadoras e mais ricas de futuro, em benefício de todos os outros homens do planeta”. Quem o disse foi o próprio Rougemont, consciente de que memória e projecto de futuro deveriam unir-se. Como Karl Jaspers disse, e o autor de “L’Europe en Jeu” concorda,: a Europa não tem escolha senão entre a balcanização e a helvetização, ou seja, entre a fragmentação e a incerteza, de um lado; a integração federal das nações e a partilha de soberanias, de outro. Premonitoriamente, Rougemont defendeu a compreensão da conflitualidade e o fervilhar de ideias. Está em causa a paz, mas também o amor da complexidade. E não podemos esquecer ainda que uma federação constitui a fórmula da proximidade por excelência; enquanto o totalitarismo é simples e rígido, como a guerra e a morte; o federalismo é complexo e flexível, como a paz e como a vida.


A EUROPA NECESSÁRIA 
Para durar, contudo, a Europa não deve contar apenas com as pessoas do poder. “A união, a paz, que a maior parte dentre elas desejam, não pode ser questão sua, por razões absurdas, mas técnicas”. É preciso empenhamento de todos. A palavra deve caber aos povos. E se em 1948 não era possível contar com todos os povos da Europa, em virtude da situação do leste, o certo é que havia que criar condições para um equilíbrio futuro (“é a única maneira de não abandonar esses povos ao seu destino, e de criar um pólo de atracção necessário ao seu equilíbrio”). O tempo veio a confirmar a profecia de Rougemont e em Lisboa, a 13 de Dezembro, tivemos a confirmação de uma Europa mais próxima desse equilíbrio, que então se afigurava longínquo. E falamos de um sistema de “liberdades organizadas”, solução de equilíbrio entre o individualismo e o colectivismo. A Europa é diálogo e debate perpétuo, daí que deva basear-se na união na diversidade. Ao relermos os textos do Congresso de Haia, verificamos que conservam juventude e frescura, exactamente porque estavam à frente do seu tempo, pondo a tónica numa lógica de rede, na reflexão e na cultura, no tempo, na memória e no anseio de um futuro melhor. “A criação, a transmissão e a elaboração da cultura nunca foram na Europa apanágio de uma doutrina única, duma nação ou de uma casta escolhida. Resultam, pelo contrário, de um diálogo permanente (muitas vezes dramático, outras trágico) entre um grande número de realidades e de tendências antagónicas que todas contribuíram para fazer a Europa e para modelar a ideia europeia de homem”. E, de novo, sentimos o pendor profético e visionário de Denis de Rougemont, quando nos fala de uma Carta de Direitos e Deveres da Pessoa Humana e de um Tribunal Superior. E em Lisboa estes temas estiveram na ordem do dia não só pelo reforço da União de direito, mas também porque a União Europeia adere à Convenção Europeia dos Direitos Humanos, cujas bases foram lançadas em 1948, até porque “a conquista suprema da Europa chama-se dignidade humana e a sua verdadeira força está na liberdade”…


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