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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

“Vitória da Razão” de Rodney Stark (Tribuna da História, 2007; tradução de Mariana de Castro) é uma obra surpreendente que nos obriga a reflectir e a limpar algumas ideias falsas que se têm repetido ao longo do tempo. A obra é antecedida por uma introdução da autoria de Mendo Castro Henriques, onde se clarificam algumas lacunas do livro, em especial no tocante à realidade histórica portuguesa.

A VIDA DOS LIVROS
De 19 a 25 de Novembro de 2007

“Vitória da Razão” de Rodney Stark (Tribuna da História, 2007; tradução de Mariana de Castro) é uma obra surpreendente que nos obriga a reflectir e a limpar algumas ideias falsas que se têm repetido ao longo do tempo.


“Dante and Beatrice”, Henry Holiday, 1884
Walker Art Gallery of Liverpool

NÃO ESQUECER PORTUGAL
A obra é antecedida por uma introdução da autoria de Mendo Castro Henriques, onde se clarificam algumas lacunas do livro, em especial no tocante à realidade histórica portuguesa. E, perante as informações recolhidas, podemos perceber que Portugal é, em si mesmo, uma boa ilustração da tese essencial do autor. De facto, a monarquia portuguesa, entre os séculos XII e XVI ilustra bem o carácter inovador da experiência política e social influenciada pelo cristianismo (a génese do Estado, a fronteira, a descentralização municipal, a inovação técnica…).

COMPREENDER A HISTÓRIA 
A “Vitória da Razão” é constituída por duas partes – as Raízes e a Realização – e ambas formam um todo que ilustra bem o pensamento de Stark: “Para compreender a natureza da religião é necessário considerá-la como objecto de escolhas racionais e conscientes, e não como um conjunto de sintomas irracionais” – diz-nos Artur Mourão no prefácio. “Os fenómenos religiosos explicam-se como religiosos por inerência e não como fenómenos derivados. As religiões afirmam-se por si como fenómenos humanos, como resultado positivo, respeitador e consentâneo com a natureza multiforme e heterogénea do ser humano, para cuja unidade de funções de possibilidades e de ritmos de existência a religião pode constituir um factor decisivo e determinante”. E o certo é que o autor é insuspeito de confessionalismo – já que é agnóstico e procura, com dados objectivos, defender e justificar o seu ponto de vista. E o que nos diz Stark? Que a Igreja medieval foi inovadora, preparando o caminho para valorizar a razão, a singularidade e a liberdade individual – a partir do “livre arbítrio”, da vontade livre, da graça divina da razão e da salvação individual. O conceito de Max Weber de “desencantamento do mundo” teria, assim, sido construído paulatinamente a partir da referência à pessoa humana e à sua dignidade – a qual, antes do protestantismo, lançou as bases da doutrina dos direitos humanos, condenou a escravatura e valorizou a propriedade privada, a legitimação do lucro, a igualdade moral dos indivíduos, o auto-governo e a teoria democrática ocidental. O capitalismo começa nos mosteiros e depois nas cidades Estado italianas, onde se criaram novas técnicas de administração e financiamento, de que resultaram novas empresas comerciais. O Ocidente cristão avançou, pois, com as bases da racionalidade, que é a natural contrapartida da fé. O Deus pessoal é, assim, olhado como amor e inteligência, como caridade (agapé) e como logos. O protestantismo, agostiniano em Lutero e predestinado em Calvino, não rompe, mas continua a inovação cristã do catolicismo. E se Weber quis ver a eficácia das manifestações do sucesso resultantes da ética protestante, a verdade é que não valorizou suficientemente os factores de continuidade.

QUE IDADE MÉDIA? 
Longe de uma “Idade de Trevas”, temos a ocorrência de muitas inovações relevantes no período medieval. O progresso faz-se sentir nas técnicas (moinhos), nas invenções (chaminé, óculos, relógio), nos transportes, na guerra, na cultura, no ensino, na ciência, na economia. As ordens religiosas descobrem o mercado e a importância dos excedentes. A especialização e a economia monetária são naturais consequências da complexidade na satisfação de necessidades. As virtudes do trabalho e da vida frugal são desenvolvidas, aparece a noção de preço justo desde a primeira escolástica e a legitimidade do juro começa a ser aceite progressivamente perante o reconhecimento da complexidade dos novos fenómenos económicos. E quando lemos os textos teológicos, fácil é de perceber que a importância da igualdade moral (“não há judeu nem grego, não há escravo nem homem livre, não há homem nem mulher, pois somos todos um em Jesus Cristo”, na conhecida fórmula paulina). Apesar das desigualdades terrenas, não há desigualdade no sentido mais fundo – aos olhos de Deus e da vida eterna. E quanto à propriedade privada, S. Tomás afirma que, apesar de não emanar da lei divina, não vai contra a lei natural, já que faz parte da natureza humana por ser produto da razão. E aqui não há contradição relativamente aos compromissos de pobreza ou à imitação de Cristo.

TEMAS DE CIVILIZAÇÃO 
A ideia de limitar os poderes do Estado e dos monarcas, a separação entre a Igreja e o Estado (dai a César o que é de César…), o combate ao despotismo, a liberdade económica, o desenvolvimento das cidades (Veneza, Génova, Florença, Milão…) são temas nos quais é evidente o contributo modernizador do cristianismo – e o pensamento de Dante não pode passar despercebido. Por isso, Jakob Brukhardt tem de ser lido a uma outra luz na sua análise do Renascimento. Afinal, Florença (o Estado como obra de arte) tem de ser vista como resultado de um processo longo de maturação, não surge como fenómeno instantâneo – porque a história não se confunde com as bebidas instantâneas.

CAPITALISMO “POPULAR” 
Olhe-se a história dos Riccardi em Lucca, cidade comercial próspera perto de Florença. “Cada vez que faziam ou reviam um orçamento, era criado, com algum capital da empresa, um fundo para os pobres”. Tais fundos aparecem registados em nome do “nosso bom Senhor Deus”, como representante dos pobres. Assim, os desfavorecidos eram parceiros da empresa. Quando havia dividendos uma parte ia para eles. Deste modo, o capitalismo não é fruto da ética protestante, pois a ética protestante desenvolveu em muitos aspectos o que o cristianismo medieval já anunciara. A ética protestante correspondeu, deste modo, às condições culturais dos países em que se desenvolveu e Rodney Stark demonstra-o, a partir da consideração autónoma dos fenómenos religiosos como fenómenos humanos de consequências múltiplas. Daí o aperfeiçoamento do capitalismo italiano, a emergência do puritanismo e da frugalidade, a influência dos humiliatii italianos, as leis contra o luxo, o capitalismo da Flandres do norte (que os portugueses conheceram desde cedo), a destruição ou a desorganização momentânea do capitalismo pela emergência da Reforma e a impossibilidade de confundir as tiranias políticas com o cristianismo.

TESTEMUNHO INSUSPEITO 
E oiçamos o que afirmou um investigador chinês: “Estudámos tudo o que se possa imaginar de uma perspectiva histórica, política, económica e cultural. Primeiro pensámos que (o sucesso dos ocidentais) foi porque tiveram melhores armas do que nós. Depois, pensámos que foi porque tiveram melhor sistema político. A seguir passámos ao sistema económico. Mas durante os últimos vinte anos percebemos que o coração da vossa cultura é a vossa religião: o cristianismo. Foi essa a causa do poder do ocidente. Foi a base cristã da vida social e cultural que possibilitou o surgimento capitalismo e mais tarde a transição com sucesso para a democracia. Nós não temos qualquer dúvida sobre isso”.


E oiça aqui as minhas sugestões na Renascença

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 19 de novembro de 2007