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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

Um livro por Semana

Miguel Torga procurou interpretar a voz da terra, e fê--lo de um modo intenso e fiel nos “Novos Contos da Montanha” (1ª edição, 1945). “Corre por estas montanhas um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos. O social juntou-se ao natural, e a lei anda de mãos dadas com o suão a acabar de secar os olhos e as fontes. Crestados e encarquilhados os rostos dos velhos parecem pergaminhos milenários onde uma pena cruel traçou fundas e trágicas legendas. Na cara lisa dos novos pouca mais esperança há”.

UM LIVRO POR SEMANA
De 6 a 12 de Agosto de 2007


Miguel Torga procurou interpretar a voz da terra, e fê-lo de um modo intenso e fiel nos “Novos Contos da Montanha” (1ª edição, 1945). “Corre por estas montanhas um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos. O social juntou-se ao natural, e a lei anda de mãos dadas com o suão a acabar de secar os olhos e as fontes. Crestados e encarquilhados os rostos dos velhos parecem pergaminhos milenários onde uma pena cruel traçou fundas e trágicas legendas. Na cara lisa dos novos pouca mais esperança há”. Assim se exprime o escritor, com as suas angústias e o seu desejo forte e insistente de justiça. Deparamos com a geografia dos dramas, dos encontros e dos desencontros, da dor e da placidez, do suor do rosto e das agruras de uma natureza caprichosa e imprevisível. Torga descreve os lugares e os povos como se houvesse sempre um elo panteísta a uni-los e a dar-lhes sentido. A natureza e a humanidade confundem-se, a cada passo. A terra e as gentes, a natureza e a vida, os sentimentos trágicos, tudo se encontra nestas páginas, como na história de orgulho de Riba Dal, terra de judeus, onde decorre a cena lancinante do “abafador”, o Alma-Grande, chamado a abreviar o suposto desenlace fatal de Isaac, antes que viesse o presbítero cristão. No entanto, a chegada de Abel, o filho ainda criança do moribundo torna tudo diferente e impossível. Num ápice a vida condenada renasce, o Alma-Grande não pode completar a sua tarefa macabra por causa da inusitada chegada do pequeno. E, para além da cura e da convalescença, nasce uma terrível sede de vingança. O feitiço vira-se contra o feiticeiro. Isaac não perdoa a Alma-Grande aquele momento que poderia ter sido o fatal, em que o enfermo implorou, perante a indiferença fria do “abafador”, mais uma oportunidade para viver… “E, com mais um estertor apenas, estavam em paz os três. O Isaac tinha a sua vingança, o Alma-Grande já não sentia medo e a criança compreendera, afinal”. Os contos sucedem-se, descrevendo a vida dura, incerta, implacável, mas também o seu quotidiano normal. “Ao crepúsculo que descera e obrigara a largar o trabalho, sucedera um luar indeciso, tépido, de noite de Maio. E nessa viragem de luz, agora conscientes da energia gasta, exaustos e ressequidos, comiam e bebiam como lobos”. Morte e vida, ódio e amor, violência e paz, afecto e indiferença… Tudo aqui se encontra. O padre Gusmão, saído debaixo do pálio de uma procissão, incapaz perante uma parturiente desesperada de desempenhar a sua função espiritual, torna-se o parteiro de serviço, desempenhando, para estupefacção geral, a função verdadeiramente criadora, para a qual na essência deveria sempre estar alertado. “Pronto, já cá está! Na exclamação de triunfo do padre Gusmão havia qualquer coisa de herético que feria os sentimentos do moleiro. Mas, por outro lado, nada o poderia comover mais do que ver o filho a espernear naquelas mãos poderosas, humanas, que acabavam de o roubar à escuridão do nada”. É a montanha que protagoniza os contos. Se há um herói ele chama-se serra, a grande divindade pagã, com os irmãos serranos, “que se purificam com sofrimento universal, num purgatório de chamas transmontanas”. E descobrimos o próprio autor na sua paixão da natureza e da caça: “a caça fora a maneira de se encontrar com as forças elementares do mundo”. Mas se há panteísmo também há o maravilhoso cristão popular, das lendas de Natal. Isto, ao lado do testemunho permanente do autor sobre as suas raízes e sobre quantos faziam da terra o seu ganha-pão. “Os Novos Contos da Montanha” não constituem, assim, um livro neutro, reúnem textos inesperados e enigmáticos que contribuem para compreendermos melhor a humanidade, como realidade complexa e insondável. Para quem escreve Torga? “No meu espírito”, diz o próprio, tem igual peso “o juízo dos leigos e o dos ungidos” e consola-o “tanto o aplauso dos simples como o dos complicados. Só quando uns e outros se juntam na mesma curiosidade pelo que escrevo, sinto uma relativa paz de consciência e alguma certeza”… A voz da terra é, por isso mesmo, tantas vezes incompreensível. Mas nestes contos, o escritor procura tornar legíveis as lições de humanidade tiradas das entranhas do mundo.
                                                             Guilherme d'Oliveira Martins