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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

“Adquirir a Sua Alma na Paciência” de Soeren Kierkegaard (Assírio e Alvim, 2007) é o quarto dos quatro discursos edificantes do pensador dinamarquês. Apesar da dificuldade do texto, estamos perante um discurso apologético que nos coloca no cerne da interrogação sobre o sentido da vida, e que lida com a paciência, que o ensaio aconselha, como modo de permitir-nos procurar chegar ao limiar da tarefa sempre incompleta e imperfeita de “adquirir a alma”.

UM LIVRO POR SEMANA

De 2 a 8 de Julho de 2007.

 

“Adquirir a Sua Alma na Paciência” de Soeren Kierkegaard (Assírio e Alvim, 2007) é o quarto dos quatro discursos edificantes do pensador dinamarquês. Apesar da dificuldade do texto, estamos perante um discurso apologético que nos coloca no cerne da interrogação sobre o sentido da vida, e que lida com a paciência, que o ensaio aconselha, como modo de permitir-nos procurar chegar ao limiar da tarefa sempre incompleta e imperfeita de “adquirir a alma”. O discurso propriamente dito de Kierkegaard ocupa menos de trinta páginas, mas o livro, inserido na colecção Teofanias, dirigida por José Tolentino Mendonça, organizado e traduzido do dinamarquês por N. Ferro e M. Jorge de Carvalho, contém um importante manancial de notas (da página 37 à 245) e um posfácio da autoria dos organizadores. Quer as notas suculentas quer o posfácio são de leitura indispensável, ainda que pessoalmente aconselhe a que se comece por ler, de seguida, o ensaio, indo depois às notas e ao comentário final. Dei, aliás, por muito bom empregue o fim-de-semana que reservei a essas tarefas, numa leitura lenta e saboreada. Não é possível, porém, fazer uma passagem pela rama num texto tão intenso como este. O aparato das anotações singulariza-se pelo cuidado e pelo conhecimento que pressupõe. E se, por vezes, sentimos dificuldade na apreensão do sentido exacto de algumas afirmações, depois percebemos que a formulação original do autor assumiu intencionalmente algumas curvas de raciocínio mais apertadas. Estamos nos antípodas de “Fausto”. De que se fala quando se trata de “adquirir a sua alma”? Estamos perante dois sentidos: o do preenchimento ou superação da nudez da alma; e da aquisição de si, como acto de passar a ser si mesmo. Se nos lembrarmos de “Ou…Ou…”, estamos no conselho imperativo que o juiz dirige ao cansado esteta: “escolhe-te a ti mesmo”. E o certo é que se não queremos ser possuídos pelo mundo, temos de realizar um acto exigente de escolha, o que obriga a um exercício de paciência, que, pela natureza do que está em causa, nem pode limitar-se a ser um fim em si mesmo, nem pode conduzir ao auto-comprazimento, como acontece com as coisas vãs. Mais do que o alvoroço do pássaro rico, o que importa é cultivar a paciência que “é um pássaro pobre que não vem com ares e gestos exteriores, mas como uma suave brisa e um incorruptível ser de espírito tranquilo”. Kierkegaard parte de S. Lucas (21, 19), quando Jesus, no discurso sobre a queda de Jerusalém, alerta para as perseguições que cairão sobre os seus discípulos. Depois de dizer que “nem um só cabelo da vossa cabeça se perderá”, proclama: “Na vossa paciência as vossas almas possuí”. A vulgata nem sempre usa a palavra paciência, usando igualmente constância, na medida em que Lucas quis dar à expressão um sentido de apelo à coragem e a perseverança. Aliás, a palavra dinamarquesa de que o autor parte, “taalmodighed”, não significa paciência no sentido mais comum da palavra, mas apelo à coragem da paciência. Kierkegaard diz: “Quando juntamos as palavras e ponderamos como é que um homem as pode pôr em prática, então a primeira coisa que se requer é que tenha paciência para compreender que não se possui a si mesmo; que tenha paciência para compreender que uma aquisição da sua própria alma na paciência é uma obra da paciência e que, portanto, não deve atender à paixão, que, com razão, só pensa que pode crescer na impaciência”. Se a boa semente só cresce na paciência, a má semente pode crescer na impaciência. O mercador e o pescador precisam de paciência, mas esta tem se juntar à clarividência, à experiência, às mercadorias e aos apetrechos… E assim chegamos à alma: “Ela deve ser possuída e adquirida simultaneamente; ela pertence ao mundo como propriedade ilegítima, pertence a Deus como verdadeira propriedade, pertence ao homem como propriedade, isto é, como propriedade que deve ser adquirida. Então, ele adquire – se efectivamente adquire – a sua alma subtraindo-a ao mundo, tomando-a de Deus, por si mesmo”. Não está, pois, em causa a aquisição de paciência, que corresponderia a um engano ou a uma fraude, já que corresponderia a um instrumento sem valor em si mesmo. Do que se trata é de alcançarmos um acordo da alma com todos os seus possuidores – “com a vida do mundo, na medida em que, sofrendo, se adquire a si mesma em subtracção a ele”; com Deus, “na medida em que, sofrendo, se recebe a si mesma dEle”; consigo mesma, na medida em que conserva aquilo que, ao mesmo tempo, a dá aos próprios e a Deus. E o certo é que a paciência (no sentido que importa) tem de estar sempre presente para evitar o mal do caminhante, que “afasta de si a paciência quando ganhou o conhecimento”. Afinal, “aquele que, assim, só quer ser paciente para conhecer a sua alma – esse não quer adquirir a sua alma na paciência”. Quem conhece sabe, pois, que a alma não lhe pertence e que precisa de a conquistar ao mundo. Para que essa subtracção exista e se estabilize, é preciso que a paciência persista. Querer à força a aquisição é o caminho para a não obter. Eis o fundamental do tema. Adquirir a alma significa escolher-se a si próprio, cultivar o domínio de si. Deixar de ser dominado pelo mundo, na aparência de domínio deste, e criar condições para a autonomia individual. Como salientam os organizadores do volume: “a paciência é (…) o correlato de uma falta de poder, de uma limitação, o requisito dos que não dominam o tempo e o mundo, dos que têm de sofrer a força de um poder alheio, subtraído ao seu controlo, oposto àquilo que pretendem”.
                                                Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 02 de julho de 2007