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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

“A Voz da Terra” de Miguel Real (Quidnovi) é um romance histórico que invoca o tempo de Sebastião José de Carvalho e Melo, tendo como tema central (ou pretexto) o terramoto de 1 de Novembro de 1755. Um brasileiro rico, Julinho de sua graça, ou Júlio Telles Fernandes, chega a Lisboa com duas missões, uma das quais a desempenhar junto do poderoso Ministro. Num percurso bem delineado, fácil de seguir e de leitura atraente, através da Lisboa do século XVIII, seguimos alguém provindo do Recife, portador da memória dos cristãos-novos de Pernambuco, outrora defendidos, sem êxito, pela voz do Padre António Vieira.

UM LIVRO POR SEMANA
De 30 de Outubro a 5 de Novembro de 2006

“A Voz da Terra” de Miguel Real (Quidnovi) é um romance histórico que invoca o tempo de Sebastião José de Carvalho e Melo, tendo como tema central (ou pretexto) o terramoto de 1 de Novembro de 1755. Um brasileiro rico, Julinho de sua graça, ou Júlio Telles Fernandes, chega a Lisboa com duas missões, uma das quais a desempenhar junto do poderoso Ministro. Num percurso bem delineado, fácil de seguir e de leitura atraente, através da Lisboa do século XVIII, seguimos alguém provindo do Recife, portador da memória dos cristãos-novos de Pernambuco, outrora defendidos, sem êxito, pela voz do Padre António Vieira. E, para quem conhece a obra do autor, reencontramos, de novo, Branca Dias, através da sua descendência. Aliás, a segunda missão de Julinho visaria entregar à judia Violante Dias um anel de Branca, sua prima… A cidade de Lisboa ganha vida aos olhos do brasileiro, que se cruza com personagens interessantes e multifacetadas – as Esmeraldinhas (a nova e a velha), a viúva Passarinho, a menina Smith, o Cónego Formigão, os Peixotinhos… Quanto à missão junto de Sebastião José, liga-se a uma aspiração dos mascates do Recife. “Queremos comércio livre, que nos trapiches do Recife aportem barcos de todas as nações, que as leis do novo Estado sejam as portuguesas, mas a economia europeia…” No fundo, o que Julinho e os mascates queriam para Pernambuco era o que Carvalho e Melo queria, ele próprio, para Portugal, contra a nobreza parasitária e esbanjadora e a igreja supersticiosa. O encontro com o governante todo-poderoso traduziu-se, porém, numa relativa desilusão. Aliás, só o empenho e a amizade dos Peixotinhos salvariam a reputação do rico pernambucano. Apesar de tudo, o Ministro não escondeu alguma abertura, depois da dúvida e da perplexidade iniciais. Era, contudo, muito arriscado tomar uma qualquer iniciativa nesse domínio, mesmo que por troca de bom dinheiro, já que a unidade brasileira era um projecto prioritário para o futuro Marquês de Pombal. Somos, assim, testemunhas ao longo do romance dos acontecimentos mais marcantes de um tempo cheio de interrogações e medos: o incêndio do Hospital de Todos os Santos, o Candomblé no Beco do Forno do Tijolo, o terrível terramoto, o início da reconstrução, a influência do Padre Malagrida, o processo dos Távoras, a expulsão dos jesuítas, a reforma económica e educativa… Lisboa sente os efeitos de uma destruição total e simbólica: “a voz da Terra falou”, com um “fragor cavo e conflituoso, lento e crescente, uma fala cavernosa, rugente…” O terramoto foi, no fundo, um revelador da decadência e da vontade de regressar o trabalho e à vida, perante uma “voz da Terra”, que se tornara “hiante, aterradora, ensurdecedora, como milhões de bombardas explodindo sob os pés dos homens”. Diante da destruição, ouviu-se “a voz dos homens” num programa simples e determinado: “Enterrar os mortos, cuidar dos vivos”. Carvalho e Melo era o homem do momento, num país doente, mas necessitado de mudanças profundas… Quando Julinho regressou ao Brasil “tudo mudara em menos de dez anos, tudo ia mudando, Lisboa espraiara-se, geometrizara-se, racionalizara-se, industrializara-se, alfabetizara-se, modernizara-se”… Mas, continuava “ansiando por uma elite iluminada” que a viesse salvar.

Guilherme d'Oliveira Martins