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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

Hannah Arendt (1906-1975), cujo primeiro centenário do nascimento ocorreu a 14 de Outubro, é autora de “La Nature du Totalitarisme”, Payot, 1990, e tem uma obra vasta e influente. Estamos diante de uma pioneira na análise do “totalitarismo”, fenómeno que vai regressando ao mundo histórico com novas e terríveis roupagens. Não se tratava de analisar ou compreender a tirania, há muito conhecida da humanidade, mas de ir ao encontro de uma realidade nova que trouxe ao século XX a presença da barbárie que poucos suspeitavam pudesse ser possível.

UM LIVRO POR SEMANA
De 23 a 29 de Outubro de 2006

Hannah Arendt (1906-1975), cujo primeiro centenário do nascimento ocorreu a 14 de Outubro, é autora de “La Nature du Totalitarisme”, Payot, 1990, e tem uma obra vasta e influente. Estamos diante de uma pioneira na análise do “totalitarismo”, fenómeno que vai regressando ao mundo histórico com novas e terríveis roupagens. Não se tratava de analisar ou compreender a tirania, há muito conhecida da humanidade, mas de ir ao encontro de uma realidade nova que trouxe ao século XX a presença da barbárie que poucos suspeitavam pudesse ser possível. E hoje um certo esquecimento e a indiferença parecem conduzir-nos à perda de memória sobre as “origens do totalitarismo”, com as consequências dramáticas que vivemos há meio século… Mas como prevenir as soluções assentes em “leis da Natureza e da História” que não se preocupam com a sua tradução em normas do bem e do mal para uso dos indivíduos e das pessoas? No fundo, urge compreender as consequências funestas das concepções transpersonalistas que fundam ideologias que justificam “a eliminação dos indivíduos em benefício do processo e do progresso triunfantes da espécie”. Trata-se de entender a dualidade entre a lei, que é a essência de um governo constitucional ou republicano, e o terror, que constitui a base do governo totalitário. H. Arendt parte de Santo Agostinho: “o homem foi criado para que houvesse um começo”. E esse começo exige uma permanente consciência da liberdade através da lei e do direito, contra o terror e a arbitrariedade, para os quais as pessoas deixam de valer por si e são levadas a ser vistas e a ver-se como um só, sob a sombra avassaladora de um processo total. E o medo torna-se princípio de acção, como já referia Montesquieu. A pensadora alemã teve, no entanto, especiais cautelas na caracterização do totalitarismo. Não o confundiu com as ditaduras de partido único (de Lenine e Mussolini), mas ligou-o às experiências alemã (depois de 1938) e russa desde os anos trinta. Havia então organizações que instrumentalizavam os indivíduos a objectivos comuns de purificação e de perfeição, com sacrifício completo da autonomia e da liberdade. Mas Hannah Arendt não deixava de referir ainda as simpatias dos filósofos em relação às tiranias – “que se explicam por razões múltiplas e variadas, sendo a principal a que se liga ao facto de o tirano ser susceptível de oferecer uma margem inabitual de liberdade e de falta de perturbação aos filósofos”, e dá o exemplo de Spinoza e de Nietzsche. Verifica-se, deste modo, uma proximidade entre tiranos e filósofos (desde Platão, pelo menos), designadamente no tocante à solidão e ao isolamento, que determina uma dependência doentia, de natureza parasitária do poder. Eis por que razão Arendt invoca insistentemente a afirmação de Santo Agostinho sobre a pessoa como começo (“Initium ergo ut esset, creatus est homo”) – trata-se de valorizar a capacidade de compreender que a sucessão de gerações é “a garantia de uma história que nunca saberia ter fim porque é uma história de seres que têm por essência o começo”. Contra as sociedades terminais supostamente perfeitas, há que valorizar a liberdade, o pluralismo, as diferenças, as imperfeições, os avanços e os recuos, próprios da humanidade. Salomão preferia, por isso, falar de um “coração inteligente”, capaz de compreender os limites, a imperfeição e a compaixão. Daí a importância da actividade de compreender e da imaginação, em lugar da fantasia. E imaginação significava para Hannah Arendt a capacidade de entender – as diferenças, a autonomia, a liberdade e a imperfeição. Talvez a melhor forma de nos precavermos contra a “banalização do mal”… 

Guilherme d'Oliveira Martins