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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

“Istanbul, Memories of a City” (Faber, 2006) de Orhan Pamuk (1952) é um livro fundamental não só para se compreender a antiga Constantinopla projectada nos dias de hoje, mas também porque é uma obra-prima da literatura contemporânea – um misto de biografia e ensaio. Pamuk acaba de ser agraciado com o Prémio Nobel da Literatura, e neste caso a atribuição do galardão representa o reconhecimento indiscutível de um grande escritor e de um cidadão para quem não pode haver separação entre a vida e a escrita.

UM LIVRO POR SEMANA
De 16 a 22 de Outubro de 2006

“Istanbul, Memories of a City” (Faber, 2006) de Orhan Pamuk (1952) é um livro fundamental não só para se compreender a antiga Constantinopla projectada nos dias de hoje, mas também porque é uma obra-prima da literatura contemporânea – um misto de biografia e ensaio. Pamuk acaba de ser agraciado com o Prémio Nobel da Literatura, e neste caso a atribuição do galardão representa o reconhecimento indiscutível de um grande escritor e de um cidadão para quem não pode haver separação entre a vida e a escrita. Como disse, um dia, citando Ibn Zehrani, “nada pode ser mais assombroso que a vida, salvo a escrita”. E isso mesmo se sente ao longo desta invocação de uma cidade e das suas memórias, a partir da pertença a esse lugar mágico onde nasceu e onde vive, que é uma ponte entre o ocidente e o oriente, um ponto de encontro e de fronteira, no sentido mais rico do termo. E assim procura o sentido básico e universal da humanidade. As imagens e as pessoas ligam-se às reflexões onde revela um espírito brilhante, tantas vezes preocupado com o pormenor, mas sobretudo empenhado em regressar à necessidade de defender uma cultura aberta, que não tem razões para se fechar, quaisquer que sejam. “A discussão sobre se os turcos são ou não europeus é bizantina; o importante é que os turcos querem ser europeus”. E quando lemos O. Pamuk percebemos que “Europa” é sinónimo de cultura pluralista e aberta, de tolerância e respeito. Mais do que qualquer receita, sempre inútil, o fundamental são a vida, a prática quotidiana e o que une as pessoas. E o escritor recupera, como nos velhos contos, o modo tradicional, de pegar no leitor e levá-lo para o mundo dos enigmas. O estreito do Bósforo une. E a cidade, com o Palácio de Topkapi, Santa Sofia, a Mesquita Azul, o Corno de Ouro ou o Grande Bazar, o porto, os cafés, as montanhas da Ásia menor ao longe, marca a “diferença como identidade”. Harun al-Rachid vai, como fantasma, pelas ruas a ouvir o que dele se diz… “O sonho é uma segunda vida”. O regresso à História, a possibilidade de reconstruir a escrita através da memória permitem tentar perceber melhor a cidade e a sua gente. A identidade de Istambul define-se, no fundo, para Pamuk, pela encruzilhada entre a cultura asiática, que vem das longínquas estepes, até à herança grega e clássica, tão próxima. A europeidade resulta assim enriquecida, a seu ver, mesmo que o seu pendor aberto o tenha feito sofrer amargos de boca (na defesa de curdos e arménios…). “O que hoje divide os turcos não é o dilema entre laicismo e islamismo – a nossa principal fractura interior é a muito injusta distribuição da riqueza”. Um nível de vida digno das pessoas e um Estado democrático respeitável, eis o que devem ser objectivos de uma Turquia moderna, onde todos possam sentir-se em sua casa. Assim se contrariará o fanatismo e se incentivará uma visão corajosa e compassiva do mundo. E o escritor perscruta a existência humana, entre a angústia, o desespero, na lembrança da decadência da “Grande Porta”, mas também no apelo positivo das lembranças e das invocações amenas do amor, da beleza e da esperança… Há uma procura constante da liberdade e do universalismo da dignidade na visitação da memória. “Istanbul” retoma, aliás, o que já encontráramos em “Os Jardins da Memória” (“Kara Kitap” ou “Livro Negro”, trad. de Miguel Serras Pereira, Presença, 2002). E o certo é que a memória é uma excelente matéria-prima, talvez a única que permite combater a indiferença e o esquecimento. Deparamos, afinal, com um visitante por que há muito esperávamos.

Guilherme d'Oliveira Martins