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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

“O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo” de Germano de Almeida é um retrato de Cabo Verde escrito com talento e humor. Na senda de nomes marcantes como Baltazar Lopes, António Aurélio Gonçalves, Jorge Barbosa e Manuel Lopes, Germano de Almeida impôs-se desde este seu primeiro romance como uma voz que deve ser ouvida. A frescura, a alegria, o apurado sentido crítico juntam-se neste bem urdido romance que nos permite olhar Cabo Verde com um afecto muito especial.

UM LIVRO POR SEMANA
De 21 a 27 de Agosto de 2006

“O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo” de Germano de Almeida é um retrato de Cabo Verde escrito com talento e humor. Na senda de nomes marcantes como Baltazar Lopes, António Aurélio Gonçalves, Jorge Barbosa e Manuel Lopes, Germano de Almeida impôs-se desde este seu primeiro romance como uma voz que deve ser ouvida. A frescura, a alegria, o apurado sentido crítico juntam-se neste bem urdido romance que nos permite olhar Cabo Verde com um afecto muito especial. Do que se trata é de um testamento, escrito em Novembro de 1974, em 387 laudas de papel almaço pautado, com 379 escritas à máquina e as restantes manuscritas com caneta de tinta permanente, que demorou 3 horas e 45 minutos a ser lido e que deu “uma nova luz sobre a vida e pessoa do ilustre extinto”, o Sr. Napumoceno, “comerciante de importação e exportação, armazéns de venda a grosso”, doentiamente metódico, sportinguista e homem generoso. E essa luz revela-nos: uma “paixão dementada” por Adélia; a existência de uma filha natural, quando ele tinha a fama de ser um solteiro empedernido, incapaz de desinquietar uma senhora, e muito menos D. Chica, a mãe de Maria da Graça; a exigência da “marcha fúnebre”, que ninguém conhecia, de um tal Beethoven, para o funeral, em vez de mandar a filarmónica tocar “djosa quem mandób morrê”; além de uma estranha míngua de indumentárias, com receio de fornecer sinais exteriores sobre a sua fortuna. Daí o mofo do fato coçado com “odores a batata podre e feijão”, que obrigaria a desencantar outra vestimenta para a última viagem... Afinal, o testamento foi a melhor oportunidade encontrada por um “espírito exigentemente honesto” para pôr a nu as fraquezas humanas (a começar pelas próprias) – bem evidentes, por exemplo, quando assistiu “à debandada de convictos e influentes membros da União Nacional para as forças do PAIGC e ficava especialmente confuso ao ver os homens que gritavam ontem que Portugal é um todo do Minho a Timor gritarem hoje com mais força ainda que a independência é um direito dos povos, não ao referendo, não à federação, não a outros partidos, só PAIGC é força, luz e guia do nosso povo…” Maria da Graça, a filha inesperada, procura, por entre mil vicissitudes, junto de Carlos, o sobrinho de nhô Araújo, descobrir quem tinha sido, afinal, o pai. “Um homem apanhado pelas coisas”. E descobrimo-lo, “homem fino e atencioso e amável”, em episódios, de acaso, de sorte, de saber e de generosidade, como na situação hilariante dos 10 mil guarda-sóis encomendados por engano de um zero a mais, e que por um golpe de sorte chegaram ao Mindelo no dia exacto em que começou a “chuviscar torrencialmente”. Os guarda-chuvas venderam-se todos, o comerciante ganhou o que não esperava, fez figura de ter um faro comercial e um instinto únicos, e comemorou o sucesso com champanhe no Royal. Mas a história acabou mal, com cheias e mortes na ilha, e o Sr. Napumoceno da Silva Araújo a acusar-se moralmente por ter beneficiado do que viria a ser uma catástrofe. O livro constitui uma permanente surpresa. Germano de Almeida é um cicerone de eleição e o Sr. Nepumoceno um achado.

Guilherme D'Oliveira Martins

Edição: 21 de agosto de 2006