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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

A “Correspondência entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena – 1959-1978” (Guerra & Paz, 2006) é o roteiro de uma grande amizade, onde se revelam a traço forte duas personalidades marcantes da cultura portuguesa, tendo como pano de fundo o país dos anos sessenta e setenta, desde o fim do antigo regime à chegada do novo tempo que se seguiu a 25 de Abril de 1974.

UM LIVRO POR SEMANA
De 8 a 14 de Maio de 2006

A “Correspondência entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena – 1959-1978” (Guerra & Paz, 2006) é o roteiro de uma grande amizade, onde se revelam a traço forte duas personalidades marcantes da cultura portuguesa, tendo como pano de fundo o país dos anos sessenta e setenta, desde o fim do antigo regime à chegada do novo tempo que se seguiu a 25 de Abril de 1974. Sophia é um caso aparte na nossa poesia e um exemplo de uma forte ligação entre o talento e a cidadania. Sena afirmou-se na poesia, no ensaio e na crítica como paradigma de lucidez, que à distância do tempo chega a perturbar-nos pela capacidade de ver para além do imediato. A Correspondência revela-nos uma confiança e uma cumplicidade que permitem percebermos a grandeza moral dos dois interlocutores. Foi Sena quem disse a Sophia em 1950: “Filhos e versos, como os dás ao mundo? / Como na praia te conversam sombras de corais? Como de angústia anoitecer profundo? Como quem se reparte? / Como quem pode matar-te? / Ou como quem a ti não volta mais?”. E Sophia invocou exemplarmente Sena, pouco depois da sua morte: “Não és navegador mas emigrante / Legítimo português de novecentos / Levaste contigo os teus e levaste / Sonhos fúrias trabalhos e saudade; / Moraste dia por dia a tua ausência / No mais profundo fundo das profundas / Cavernas altas onde o estar se esconde”. As cartas lêem-se como uma narrativa de factos reais. Jorge de Sena parte para o Brasil num exílio intelectual e político voluntário, e a sua ausência é suprida por uma epistolografia muito rica, aqui e ali interrompida e perturbada, pela sombra pesada da polícia política. Sophia fala-nos, a dado momento, de uma “fúria de viajar” que se apoderou dela: “acima de tudo queria voltar à Grécia que foi para mim o deslumbramento inteiro e puro e onde me senti livre e com asas…” E traduz a poesia de Sena: “aqui a sua poesia que traduzi e  trouxe comigo acaba de maravilhar as pessoas. Mil saudades”. E há sempre a política, com encontros e desencontros, encantos e desencantos, confrontada com um sentimento de independência muito forte dos dois amigos. A causa da liberdade de espírito nota-se sempre. Sena é um inconformista militante, andarilho no Brasil e depois nos Estados Unidos. A amizade ganha, entretanto, o tratamento de tu. Restaurada a liberdade, Sophia desabafa, indo ao encontro do amigo: “o problema, a tragédia de toda esta revolução é a sua incompetência cultural”. E no fim, uma carta belíssima de Sophia a Mécia de Sena, poucos dias depois da morte de Jorge, resume tudo: “Comecei por ser amiga do Jorge pela profunda admiração pela sua poesia. Depois descobri a sua lealdade, a sua simpatia, o seu calor humano, e uma grandeza humana que estava inscrita na grandeza da sua poesia. Agora passou-se tudo tão longe e tão depressa. O Jorge era ainda novo e em plena força de criação e de combate. Há uma violência difícil de aceitar”.    

Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 08 de maio de 2006