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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

Falemos da “Nova Gramática do Português Contemporâneo” de Celso Cunha e de Lindley Cintra (João Sá da Costa, Lisboa, 1984; Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1985). E por que razão? Pela necessidade de cuidarmos da língua. O bom uso da língua representa um elementar acto de cidadania e de respeito pelos outros. Devemo-nos fazer entender. Saber comunicar bem é uma exigência cultural e cívica. “Falar correcto” significa falar o que a “comunidade espera”, como diria Jespersen.

UM LIVRO POR SEMANA
De 20 a 26 de Março de 2006

Falemos da “Nova Gramática do Português Contemporâneo” de Celso Cunha e de Lindley Cintra (João Sá da Costa, Lisboa, 1984; Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1985). E por que razão? Pela necessidade de cuidarmos da língua. O bom uso da língua representa um elementar acto de cidadania e de respeito pelos outros. Devemo-nos fazer entender. Saber comunicar bem é uma exigência cultural e cívica. “Falar correcto” significa falar o que a “comunidade espera”, como diria Jespersen. Mas essa expectativa tem de corresponder não a um mero formalismo, mas a um modo de compreensão das ideias e dos conceitos. A língua portuguesa nasceu do galaico-português, que originou os dialectos do ocidente peninsular (galego e português setentrional e centro-meridional). As distinções fazem-se a partir das sibilantes surdas (s, x, no galego) e sonoras (z, j, no português), da troca dos bês pelos vês e do tch pelo ch (no galego e no português do norte) ou da monotongação dos ditongos (ô ou ê, por ou e ei) no sul. Mas as diferenças, além de fonéticas, são também morfológicas e sintáticas, em resultado de um movimento convergente entre o avanço medieval dos reinos cristãos do norte e a influência moçárabe e dos reinos taifas do sul. Há em Entre Douro e Minho formas lexicais mais arcaicas, mas há outras zonas diferenciadas onde se usa a palavra “espiga” em lugar de “maçaroca”, “anho” em vez de “cordeiro”, e no sul sente-se a influência arábica. As especificidades estendem-se ora para as ilhas atlânticas, numa variante relativamente ao falar meridional, ora para o Brasil (em modo “cantado” no Norte e “descansado” no Sul, no dizer de Antenor Nascentes), ora ainda para África, Ásia e Oceânia. Além dos dialectos, temos ainda os crioulos, línguas derivadas do português, com raízes na língua franca (o papiar) estabelecida a partir do século XV. A riqueza de cada um dos dialectos ou das línguas originadas a partir do português provém do contacto com os vocabulários nativos. Uma boa Gramática é sempre uma riquíssima caixa de surpresas, onde a cada passo descobrimos novos significados, novos usos, num diálogo intenso entre o que recebemos e o que falamos. E isso é tanto mais interessante quanto mais criativa for a língua. E no caso do português com duzentos milhões de falantes e com um crescimento esperável isso é mais evidente. Por muito que nos possamos preocupar com as diferenças ortográficas ou com os acordos neste domínio, a verdade é que o mais importante é fazer da diversidade um factor de enriquecimento – evitando as confusões, os equívocos e a falta de clareza. É preciso que a frase seja “um enunciado de sentido completo, a unidade mínima de comunicação”. E nada melhor do que ler os grandes escritores e poetas, para usar melhor as palavras e para nos exprimirmos melhor. Uma Gramática é assim um auxiliar essencial. O resto vem por acréscimo… Afinal, é um prazer supremo entrar no mundo das palavras! 

Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 20 de março de 2006