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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

UM LIVRO POR SEMANA

David Lodge é autor de uma obra vasta e prolífera. Entre nós foi publicado há pouco “Autor, Autor” (Asa, 2005), onde está retratada a vida de Henry James. É proverbial o fino humor de Lodge, que o situa na linhagem de grandes autores britânicos contemporâneos como G.Greene, A.Burgess e E.Waugh. Nesta obra, encontramos o ambiente pós-vitoriano em todo o seu esplendor, cheio de fascínio. O mundo literário, teatral e artístico apresenta-nos as fronteiras ténues entre realidade e ficção.

UM LIVRO POR SEMANA
De 20 a 26 de Fevereiro de 2006

David Lodge é autor de uma obra vasta e prolífera. Entre nós foi publicado há pouco “Autor, Autor” (Asa, 2005), onde está retratada a vida de Henry James. É proverbial o fino humor de Lodge, que o situa na linhagem de grandes autores britânicos contemporâneos como G.Greene, A.Burgess e E.Waugh. Nesta obra, encontramos o ambiente pós-vitoriano em todo o seu esplendor, cheio de fascínio. O mundo literário, teatral e artístico apresenta-nos as fronteiras ténues entre realidade e ficção. A excentricidade, a sofisticação, a inteligência, os conflitos psicológicos, as ambiguidades de carácter, o cepticismo, o talento, a vontade – tudo se encontra e desencontra. E Lodge espraia os seus talentos, usando a realidade que, se não foi exactamente como vem descrita, teria sido muito próxima… O percurso de Henry James é acompanhado com minúcia. Mas o momento crucial é-nos dado aquando da representação da peça “Guy Domville”, um tremendo fiasco, que dá título à obra. Nesse dia terrível, James foi chamado ao palco – aos gritos “Autor!, Autor!”. A armadilha estava lançada. Houve hesitação, mas o escritor foi atraído à boca de cena (Ingenuidade? Traição?). E quando “se virou para encarar o público, e se preparava para fazer uma vénia com toda a elegância, um dilúvio de apupos vindo do ‘galinheiro’ abateu-se sobre a sua cabeça indefesa. Buu! Buu! Buu!”. Para quem desejava o sucesso, o mundo ruiu de súbito… E depois desse anti-climax o que houve foi a continuação da luta do “mestre”, a trepar ao mastro da fama, com determinação e raiva, mas sobretudo com talento. Foi “uma longa convalescença do espírito”. No entanto, James não pôde ver o sucesso. Sem saber, até chegou a receber como adiantamento os direitos de autor de Edith Wharton… “O seu azar foi escolher para amigos e associados escritores muito mais populares do que ele, cujo sucesso só agravava o seu próprio sentimento de fracasso, mas o tempo estabeleceu o equilíbrio…” Morreu sem saber que “ao fim de algumas décadas de obscuridade, ele se tornaria um autor clássico de méritos firmados e de leitura fundamental para quem se interessasse pela literatura moderna inglesa e americana e pela estética do romance…” E o que Lodge faz é ilustrar essa estranha contradição entre o não reconhecimento do tempo imediato e o reconhecimento do tempo longo. E depois desse momento terrível de total incompreensão, a cena vai mudando. E vemos “o espírito de Henry James a pairar por aí, algures no cosmos, a saber tudo (diz o autor) o que eu desejava que ele pudesse saber antes de morrer, a observar com justificável satisfação a forma como a sua reputação cresceu depois da sua morte, a somar os números das vendas, a ler as críticas, a ver os filmes e as séries para televisão num leitor de vídeo ou de DVD celestial, e a ouvir o alarido das nossas conversas a seu respeito e a respeito da sua obra, que sob e em crescendo através do éter como uma prolongada ovação”…

Guilherme d'Oliveira Martins


Edição: 20 de fevereiro de 2006